Atravessando Portas
Atualizado: 8 de out.

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🌸ATRAVESSANDO PORTAS
Imagine uma mulher seguindo sua jornada. Ao longo do caminho, ela encontra diferentes cruzamentos.
Cada cruzamento oferece duas ou mais direções. E, em cada uma delas, existe uma grande porta.
Não são portas comuns. São grandes portais, cercados por muros que impedem qualquer visão do que existe do outro lado.
Para seguir adiante, ela precisa escolher uma das portas.
Então ela começa a observar o entorno de cada uma: o formato, a luz, o ambiente e até as sensações que surgem enquanto olha para elas.
Busca perceber os detalhes que possam ajudá-la a decidir.
Algumas portas parecem convidativas. Outras causam certa desconfiança.
Há aquelas que ela nem considera abrir, mas uma, em especial, desperta algo que a faz parar. Ela a observa por mais algum tempo e sente vontade de atravessá-la.
Ela não sabe o que existe do outro lado. Então procura enxergar o que está ao seu alcance.
E assim começam as perguntas em sua cabeça:
— Será essa a porta certa?
— O que será que vou encontrar?
— Será que estou me arriscando demais?
Depois de algum tempo, faz sua escolha.
Respira fundo, gira a maçaneta e atravessa.
Do outro lado, encontra uma paisagem diferente daquela que havia imaginado. O ambiente é cinzento, um tanto escuro.
No lugar de um céu azul, nuvens densas.
Começa a perceber coisas que não imaginava. Algumas boas. Outras nem tanto.
Vivencia situações que não havia previsto, tem conversas que não sabia que teria, sente o que não sabia que sentiria.
À medida que percebe que aquele caminho não corresponde às suas expectativas, uma sensação de desconforto começa a crescer. Até que ela para e olha para trás.
A porta continua no mesmo lugar, mas algo mudou: agora ela está translúcida. E, através dela, a mulher consegue enxergar a si mesma, exatamente como era antes de decidir atravessá-la.
Sem perceber, ela começa a cair numa armadilha bastante conhecida: a do julgamento.
Ela olha para a mulher que ficou do outro lado e dispara:
— Como você não percebeu?
— Por que escolheu essa porta?
— Você deveria ter pensado melhor.
— Você errou feio.
— Estava tão óbvio...
Mas será que estava mesmo? Óbvio para quem?
Para a mulher que estava diante da porta sem conhecer o que havia depois dela?
Porque aquela mulher de antes da travessia ainda não tinha vivido essa experiência.
Não tinha conhecido o ambiente que encontraria. Não tinha ouvido aquelas conversas. Não conhecia aquela dor. Não tinha recebido as informações que hoje parecem tão evidentes.
Então por que, ainda assim, somos capazes de olhar para a mulher que fomos ontem com os olhos da mulher que somos hoje e exigir que ela soubesse o que só aprendemos depois?
Talvez por isso algumas portas só revelem o que não conseguíamos enxergar depois que as atravessamos.
Antes da travessia, podemos observar, imaginar possibilidades, avaliar riscos. Mas não temos como controlar tudo o que encontraremos adiante.
E talvez seja justamente isso que nos assuste: deixar para trás um cenário familiar, que aprendemos a reconhecer, mesmo sem ter controle sobre tudo o que acontece nele.
O conhecido pode nos oferecer uma sensação de segurança. O desconhecido, por sua vez, nos convida a lidar com aquilo que ainda não sabemos.
Talvez melhor seria ter ficado onde estava? Talvez nem mesmo ter iniciado uma jornada? Talvez melhor não abrir portas?
Mas será que permanecer nos pouparia de viver o inesperado?
Afinal, mesmo quando escolhemos ficar, a vida continua acontecendo. E, de tempos em tempos, nos encontramos diante de possibilidades que nos convidam a experimentar algo além da paisagem que já conhecemos.
Talvez o que assuste seja descobrir uma paisagem que não se parece com o quadro que havíamos pintado em nossa imaginação.
E talvez seguir pela vida seja também isso: fazer escolhas sem a garantia de que encontraremos exatamente aquilo que imaginamos.
Escolher, experimentar, observar o que acontece e, quando necessário, ajustar a rota.
Algumas portas podem nos levar a experiências difíceis. Outras podem revelar possibilidades que sequer imaginávamos. Como saber antecipadamente?
Algumas escolhas nos mostram, com muita clareza:
— Por aqui eu não quero mais caminhar.
Mas perceber isso hoje não precisa transformar a mulher de ontem em ré.
Talvez possamos olhar para ela e dizer:
— Eu vejo você. Reconheço que fez a escolha que conseguiu fazer com o que sabia e sentia naquele momento.
E talvez, ao se sentir finalmente vista, em vez de julgada, aquela mulher consiga responder:
— Sinto muito. Foi o que me foi possível.
Não como desculpa. Mas como reconhecimento.
Foi o que ela conseguiu enxergar com aquilo que sabia, sentia, temia e compreendia naquele momento.
E então alguma coisa muda.
Porque existe uma diferença entre culpa e responsabilidade.
A culpa permanece diante da porta antiga e insiste em perguntar:
— Como pude entrar ali?
A responsabilidade recolhe o que a experiência revelou e pergunta:
— Agora que eu vi, o que escolho fazer?
Uma nos mantém julgando o passado, ligadas à mulher que fomos.
A outra nos faz soltar o julgamento e devolver o movimento aos pés da mulher que somos hoje.
Talvez atravessar portas seja também isso.
Olhar para o que aconteceu sem tentar desacontecê-lo. Reconhecer o que ainda podemos reparar e aquilo que só podemos acolher, aprender e deixar para trás.
Observar o que aquela experiência despertou em nós.
Perceber o que pertence ao outro, reconhecer o que faz parte da nossa própria história e distinguir aquilo que está em nossas mãos hoje.
Soltar aquilo que não precisamos continuar carregando.
Trazer nossa energia de volta.
E, com o que conseguimos enxergar agora, escolher o próximo movimento.
Não para apagar a porta que atravessamos.
Mas para não construir nossa casa diante dela.
Quantas vezes fazemos isso?
Sentamos diante de uma porta antiga e continuamos olhando para ela.
A relação que tivemos.
A profissão que escolhemos.
O dinheiro que perdemos.
A oportunidade que recusamos.
A conversa que tivemos — ou aquela que nunca tivemos.
A pessoa em quem confiamos.
O lugar para onde achamos que deveríamos ter seguido.
Ou aquele que deixamos para trás e, mais tarde, imaginamos que deveríamos ter permanecido.
Enquanto isso, outras portas continuam surgindo ao longo do caminho.
Talvez autoconhecimento tenha menos a ver com encontrar a escolha perfeita e mais com conseguir olhar para a própria história e reconhecer:
Eu escolhi com a consciência que tinha.
Hoje enxergo algo que antes não enxergava.
E essa nova consciência não precisa servir para me condenar. Pode servir para me orientar.
Isso não nos tira a responsabilidade pelas nossas escolhas. Ao contrário.
É assumir a própria vida sem transformar responsabilidade em chicote.
Porque viver não é acertar todas as portas.
É aprender a atravessá-las sem abandonar a si mesma no caminho.
E talvez a mulher que um dia abriu aquela porta não precise do julgamento da mulher que você é hoje.
Talvez precise apenas que você olhe para ela, reconheça o que ela ainda não podia enxergar e diga:
— Eu entendo.
— Agora eu consigo ver um pouco mais.
— Pode deixar. Daqui eu sigo.
E talvez seja nesse instante que a porta antiga deixe de ocupar tanto espaço na sua vida.
Então siga.
Porque haverá outras portas.
Outras escolhas.
Outras informações.
Outras versões de você.
E nenhuma delas precisará saber tudo.
Talvez precise apenas enxergar o suficiente para escolher o próximo movimento.
E diante da porta que a vida coloca à sua frente hoje: o que você consegue enxergar agora que a mulher de ontem ainda não conseguia ver — e qual porta escolhe atravessar a partir daqui?
🌸Cris Lacerda
Essência Inata — um caminho de volta para si 🦋
Obs.: Texto originalmente publicado em 2019 e revisitado em 2026, com uma nova abordagem narrativa, preservando sua essência.



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