A Beleza da Assimetria

Certo dia, uma mulher contemplava seu jardim quando algo lhe chamou a atenção.
Observando as flores e as árvores, percebeu que cada uma crescia de uma maneira muito peculiar.
Algumas plantas estavam juntas, quase amontoadas. Outras cresciam isoladas.
Havia árvores de galhos tortuosos, quase discretas, enquanto outras se erguiam majestosas em direção ao céu.
Ela começou a reparar nos detalhes.
— Os galhos daquela árvore estão crescendo demais para um lado só.
— E essas flores? Algumas já desabrocharam, outras ainda não. Umas se espalharam sem critério, enquanto outras parecem tão solitárias...
Então imaginou como aquele jardim ficaria mais bonito se pudesse corrigi-lo.
Aparar aqui.
Preencher ali.
Endireitar aquele galho.
Equilibrar os dois lados...
Até que um pensamento curioso a interrompeu:
Se conseguisse corrigir todas as assimetrias daquele jardim, talvez acabasse justamente com aquilo que o tornava tão singular.
Poderia criar um paisagismo majestoso, regular, perfeitamente equilibrado.
Mas seria necessariamente mais bonito?
Ela voltou a observar a natureza.
Uma árvore não distribui seus galhos em partes iguais.
As montanhas não têm os dois lados do mesmo tamanho.
As nuvens não procuram equilíbrio antes de atravessar o céu.
Nem mesmo os dois lados do nosso rosto são exatamente iguais.
E, ainda assim, quanta beleza!
Talvez a natureza nunca tenha precisado de simetria para encontrar sua harmonia.
Então por que nós, seres humanos, desconfiamos tanto das diferenças?
Por que sentimos tanta necessidade de corrigir aquilo que não corresponde à imagem que fazemos do que seria perfeito?
Perfeito para quem?
Sem nos darmos conta, criamos réguas invisíveis para medir a vida.
Certo ou errado.
Bom ou mau.
Justo ou injusto.
Muito ou pouco.
Eu fiz por você. Você deveria fazer por mim.
O velho e conhecido olho por olho, dente por dente.
E, aos poucos, começamos a acreditar que aquilo que consideramos certo deveria ser certo para todos.
Que o que julgamos bom deveria ser bom para qualquer pessoa.
Que nossa ideia de justiça deveria servir como medida universal.
Mas será que é sempre assim?
Será que aquilo que considero errado é necessariamente errado ou apenas diferente da maneira como aprendi a enxergar?
Será que algo precisa ser ruim só porque não é bom para mim?
Será que toda diferença representa uma ameaça àquilo em que acredito?
Basta olhar ao redor para perceber como frequentemente transformamos perspectivas diferentes em lados opostos.
Em vez de escutar, classificamos.
Em vez de compreender, disputamos.
Como se reconhecer alguma verdade na experiência do outro significasse perder a nossa.
E assim vamos levantando cercas invisíveis dentro do mesmo jardim.
Mas há uma diferença importante entre respeitar aquilo que é diferente e aceitar atitudes que causam danos.
Existem injustiças reais. Existem comportamentos que ferem. Existem limites que precisam ser estabelecidos.
O que talvez mereça nossa atenção é a rapidez com que transformamos nossas próprias referências em sentenças sobre tudo e todos.
Nem toda diferença é injustiça. Nem toda igualdade é justiça.
E essa mesma régua que usamos para olhar o mundo também aparece nas nossas relações mais próximas.
Queremos que o outro ame como amamos.
Perceba o que percebemos.
Tenha as mesmas prioridades.
Ofereça na mesma medida.
Responda à vida segundo a lógica que faria sentido para nós.
E, quando isso não acontece, alguma coisa dentro de nós grita:
— Não está equilibrado!
Talvez realmente não esteja.
Mas quem disse que tudo o que é diferente está em desequilíbrio?
Às vezes, começamos a fazer contas.
Quanto ofereci?
Quanto recebi?
Por que eu faço isso e o outro não?
E, sem perceber, transformamos a relação numa espécie de balança em que cada gesto precisa encontrar seu equivalente do outro lado.
Como se a justiça dependesse de duas colunas perfeitamente iguais.
Mas as pessoas não chegam às relações com histórias idênticas.
Cada uma traz suas experiências, responsabilidades, possibilidades, necessidades e maneiras próprias de demonstrar cuidado.
Duas pessoas podem caminhar lado a lado sem oferecer exatamente as mesmas coisas, da mesma maneira, na mesma intensidade ou no mesmo momento.
Reciprocidade não significa réplica.
Assim como duas árvores podem compartilhar o mesmo jardim sem terem a mesma altura.
Isso não significa abrir mão de acordos, ignorar desequilíbrios concretos ou permanecer onde não existe respeito.
Significa reconhecer que uma relação pode ser justa sem precisar ser matematicamente simétrica.
Talvez parte do nosso sofrimento comece quando transformamos toda diferença em dívida.
Quando fazemos da nossa régua uma lei universal e passamos a conferir se a vida está nos devolvendo exatamente aquilo que acreditamos ter entregado.
Só que a vida não é uma equação. É muito mais parecida com um jardim.
Há dias em que os galhos avançam mais de um lado.
Há épocas de flores e épocas de poda.
Há quem ofereça sombra.
Há quem ofereça perfume.
Há quem precise de mais água naquele momento.
E há uma infinidade de cores, formas e movimentos compondo a paisagem.
A mulher voltou a olhar para as árvores à sua frente.
Percebeu que algumas precisavam, sim, de cuidados. Um galho quebrado poderia ser retirado. Uma planta sufocada talvez precisasse de mais espaço.
Mas isso era diferente de querer endireitar cada árvore apenas porque ela não crescia como as outras.
Uma coisa é cuidar do jardim. Outra é tentar obrigá-lo a corresponder à nossa ideia de perfeição.
E talvez façamos o mesmo com a vida.
Podemos reconhecer aquilo que nos machuca, estabelecer limites, conversar, construir acordos e ajustar a rota.
Sem precisar transformar toda diferença em defeito.
Talvez baste, por alguns instantes, suspender o julgamento e nos perguntar:
Isso realmente me fere ou apenas não corresponde à forma como eu imaginava que deveria ser?
Porque, quando soltamos um pouco as caixas do certo e do errado, do bom e do mau, do justo e do injusto, alguma coisa se abre.
Surge espaço para observar.
Para compreender.
Para escolher.
E até para descobrir beleza onde antes enxergávamos imperfeição.
Talvez amadurecer seja também abandonar a fantasia de um jardim perfeitamente alinhado.
Não para viver no caos.
Mas para reconhecer que harmonia não é ausência de diferenças.
Harmonia também é permitir que as diferenças encontrem espaço para existir sem que precisemos arrancá-las pela raiz.
A assimetria desafia a rigidez dos nossos padrões.
E talvez seja justamente por isso que ela seja tão bonita.
Porque nela mora aquilo que não pode ser reproduzido.
O singular.
O inesperado.
O vivo.
No fim, talvez a pergunta não seja:
“Por que este lado não é igual ao outro?”
Talvez seja:
“O que eu ainda não consigo enxergar porque continuo tentando fazer os dois lados serem iguais?”
Cris Lacerda
Essência Inata — um caminho de volta para si 🦋


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