O Volante da Vida

O Volante da Vida
A luzinha que ninguém queria ver
A primeira vez que aquela luzinha acendeu no painel, ela nem deu muita importância.
Estava atrasada, tinha mil coisas para resolver e não podia perder tempo com mais um problema.
— Ah, não! Justo hoje?
Continuou dirigindo.
No dia seguinte, a luz apareceu novamente.
Incomodada, parou num posto e chamou um funcionário.
— Essa luzinha não para de acender. Tem como fazer alguma coisa para ela apagar?
O rapaz examinou o painel e explicou que seria importante descobrir o motivo do alerta.
Mas ela tinha pressa.
— Não dá para desligar isso por enquanto? Depois eu vejo o que é.
E seguiu viagem, satisfeita por não precisar mais olhar para aquela luz incômoda.
Por algum tempo, tudo pareceu resolvido.
Até que a luz voltou.
Primeiro, discretamente.
Depois, com mais frequência.
E, certa manhã, enquanto dirigia, o carro começou a apresentar outros sinais de que algo não estava bem.
Foi quando ela finalmente decidiu parar.
Dessa vez, procurou um mecânico.
Ao ouvir seu relato, ele perguntou:
— Mas quando essa luz começou a acender? Você percebeu alguma mudança no funcionamento do carro? Algum barulho diferente? Alguma dificuldade?
Ela ficou em silêncio.
Não sabia responder.
Tinha passado tanto tempo tentando fazer a luz desaparecer que mal havia prestado atenção ao que acontecia com o carro.
O mecânico então comentou:
— Sabe, o painel não está tentando atrapalhar sua viagem. Ele está oferecendo informações sobre o veículo. Se você apenas apagar o aviso, pode deixar de perceber algo importante e até permitir que um pequeno problema se torne algo mais sério pelo caminho.
Aquela frase a assustou um pouco e ficou ecoando em sua cabeça.
E se ela estivesse fazendo a mesma coisa consigo própria?
Quantas vezes havia sentido o corpo dar sinais de cansaço, tensão, desconforto ou dor e pensado apenas em como fazer aquilo passar o mais rápido possível?
Tomava uma providência pontual.
Melhorava.
E retomava a rotina.
Pouco tempo depois, o sinal aparecia novamente.
Às vezes, mais intenso.
E novamente.
E novamente.
Sem que ela se perguntasse o que vinha acontecendo antes de tudo aquilo.
Não porque aliviar um sintoma fosse errado. Muitas vezes, esse cuidado era necessário.
Mas porque aliviar o desconforto e compreender o que está acontecendo são cuidados que podem caminhar juntos.
Talvez houvesse algo importante em observar os padrões.
Quando aquele sinal aparecia?
O que havia mudado?
Como estavam seu sono, sua alimentação, seu descanso?
Que situações vinham exigindo tanto dela?
O que sentia, pensava e fazia diante dessas situações?
E o que vinha deixando para depois, apesar de saber que merecia atenção?
Aos poucos, percebeu que conhecia tão pouco dos próprios sinais quanto dos avisos do painel do carro.
E não era por falta de capacidade.
Era porque havia se acostumado a seguir viagem sem olhar para si.
Talvez façamos isso mais vezes do que imaginamos.
Vivemos dentro do nosso corpo todos os dias, mas nem sempre nos relacionamos com ele como parceiros.
Exigimos que acompanhe nossos compromissos, nossas urgências, nossas preocupações e nossos planos.
E, quando ele apresenta algum sinal, muitas vezes nossa primeira pergunta é:
“Como faço isso parar?”
Quando também poderíamos perguntar:
“O que preciso observar, compreender ou cuidar?”
Nosso corpo não é um inimigo a ser vencido, nem uma máquina que precisa funcionar perfeitamente a qualquer custo.
Ele é o sustentáculo que nos permite experimentar a vida.
E nossas experiências emocionais também fazem parte dessa relação.
Às vezes, uma situação parece difícil de engolir.
Uma conversa fica atravessada.
Uma preocupação ocupa nossos pensamentos por dias.
E usamos expressões curiosas, como:
Isso me deu um nó no estômago.
Não consegui digerir aquela situação.
Estou carregando o mundo nas costas.
São sensações que revelam como percebemos, também pelo corpo, aquilo que vivemos.
Isso não significa que uma dor ou doença tenha necessariamente uma causa emocional. Nosso organismo é complexo, e os sintomas merecem investigação e cuidados adequados.
Mas significa que podemos ampliar nossa observação, em vez de separar completamente o que sentimos, o que pensamos, como vivemos e o que acontece fisicamente conosco.
Escutar o corpo não é adivinhar a causa de cada sintoma. É aprender a prestar atenção em nós mesmas.
E essa atenção também transforma a maneira como buscamos apoio para cuidar dele.
Imagine levar seu carro ao mecânico e simplesmente dizer:
— Resolva tudo. Não quero saber o que aconteceu.
Talvez ele consiga identificar e reparar o problema.
Mas quanto mais você conhece seu veículo, observa mudanças e compartilha informações, melhor consegue participar dos cuidados necessários.
Com o corpo, também podemos construir essa parceria.
O médico traz seu conhecimento especializado.
Nós levamos nossa história.
Os sintomas que percebemos.
Os exames anteriores.
As dúvidas.
Os padrões que observamos.
As informações sobre nossa rotina e nossas experiências.
Não precisamos saber tudo, nem substituir o conhecimento de quem estudou para nos apoiar.
Mas também não precisamos ocupar o lugar de uma criança desatenta, esperando que outro adulto assuma toda a responsabilidade pelo nosso cuidado.
Podemos ocupar nosso lugar adulto, conhecer melhor nosso corpo e participar ativamente das decisões sobre nossa saúde.
Buscar apoio não é entregar o volante.
É reconhecer que, em determinados momentos da viagem, precisamos de conhecimentos e intervenções especializadas para seguir com mais segurança.
Naquela tarde, ao voltar para casa, a mulher entrou no carro com outra disposição.
A luz do painel já não parecia uma inimiga.
Era uma informação.
Ela ajustou o banco, colocou o cinto, segurou o volante e olhou pelo para-brisa.
A estrada continuava lá fora, com suas curvas, imprevistos e possibilidades.
Não poderia controlar o trânsito.
Nem o clima.
Nem as escolhas dos outros motoristas.
Mas podia escolher observar o caminho.
Conhecer melhor seu veículo.
Respeitar seus limites.
Parar quando necessário.
Pedir orientação.
E decidir o próximo movimento.
Talvez assumir o volante da própria vida fosse exatamente isso.
Não a fantasia de controlar tudo.
Nem a obrigação de nunca falhar.
Muito menos seguir distraída, como uma criança que brinca com um volante de brinquedo, imaginando que está conduzindo um carro.
Era reconhecer que o volante da sua vida estava em suas mãos e que ela já era adulta para assumir seu lugar diante da própria existência.
E, a partir daí, aprender a observar melhor aquilo que lhe pertencia.
Reconhecer suas necessidades.
Fazer perguntas.
Buscar informações.
Tomar decisões.
E ajustar a rota quando necessário.
Porque há uma diferença enorme entre permitir que a vida aconteça e simplesmente deixar de participar dela.
Assumir o volante da própria vida não é controlar tudo o que acontece na estrada. É reconhecer a responsabilidade que temos sobre nossas escolhas ao percorrê-la.
Ela ligou o carro.
Antes de seguir, olhou mais uma vez para o painel.
E sorriu.
Não precisava ter todas as respostas naquele instante.
Precisava apenas estar disposta a observar os sinais e cuidar daquilo que lhe pertencia e estava ao seu alcance.
Afinal, clareza não é ter todas as respostas.
É conseguir enxergar o suficiente para escolher o próximo movimento.
E você?
Está conduzindo sua vida em parceria com seu corpo ou apenas tentando apagar as luzinhas que aparecem pelo caminho?
Cris Lacerda
Essência Inata — um caminho de volta para si 🦋


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