SOUL – O OCEANO já está AQUI

SOUL – O OCEANO já está AQUI
E se o PROPÓSITO da VIDA fosse simplesmente VIVER?
O que a animação Soul me fez perceber sobre sonhos, presença e a alegria de existir.
ARTE QUE DESPERTA | Uma reflexão inspirada no filme Soul
Este texto comenta acontecimentos importantes da história, inclusive seu desfecho.
QUANDO UM SONHO SE TORNA A RAZÃO DE TUDO
Você já desejou tanto realizar alguma coisa que começou a acreditar que sua vida só faria sentido quando aquilo finalmente acontecesse?
Talvez um projeto profissional. Um relacionamento. Uma conquista. Um reconhecimento que você espera há anos.
E, enquanto esse grande momento não chega, a vida vai acontecendo.
Foi essa reflexão que a animação Soul, da Pixar, despertou em mim.
Joe Gardner é um professor de música apaixonado por jazz. Seu grande sonho é viver profissionalmente daquilo que ama: tocar piano. E não só isso, tocar ao lado de grandes ídolos do Jazz.
E, quando finalmente surge uma oportunidade que parece capaz de transformar sua vida, acontece algo inesperado.
Joe sofre um acidente e se vê diante da morte, justamente quando acredita estar prestes a realizar seu propósito de vida.
Inconformado, ele não aceita que sua história termine ali.
Afinal, como poderia partir antes de viver aquilo para o qual acreditava ter nascido?
UMA ALMA QUE AINDA NÃO QUERIA NASCER
Em sua tentativa de retornar à Terra, Joe conhece a alma 22.
E aqui começa uma das partes mais encantadoras da história.
Enquanto Joe está desesperado para voltar à vida e realizar seu sonho, 22 não demonstra o menor interesse em nascer.
É como se um estivesse tão ocupado procurando a grande razão de sua existência, enquanto a outra ainda nem soubesse o que poderia existir de interessante nela.
E assim nasce um acordo entre eles, a de fazer Joe voltar pra Terra e libertar a 22 de ter que ir pra lá.
Eles só não contavam que fossem ambos cair na Terra, mas em corpos diferentes. E é aí que a grande aventura começa, nas experiências mais simples do cotidiano.
A BELEZA DE UMA FOLHA QUE CAI
Uma das coisas que mais me emocionam em Soul é observar o encantamento de 22 ao experimentar o mundo.
O sabor de uma pizza.
O vento tocando o rosto.
A música que acontece pelas ruas.
Uma folha que se desprende da árvore e flutua suavemente até suas mãos.
A luz do sol atravessando os espaços da cidade.
Coisas tão comuns que, muitas vezes, atravessamos sem perceber.
Mas, para aquela alma que nunca havia vivido, tudo era descoberta. Tal qual uma criança que brilha os olhos diante de cada novidade.
Tudo era extraordinário.
E nesse momento me pergunto:
Quantas vezes nós, que já estamos aqui, deixamos de experimentar esse mesmo encantamento?
Talvez não porque a vida tenha perdido sua beleza.
Mas porque estamos tão ocupadas procurando algo que nos falta, que nos distraímos de toda a beleza que se apresenta em cada experiência.
E foi exatamente o que Joe fez, de tanto focar no que ele queria, ele desqualificou toda beleza que a 22 estava sentindo naquela experiência. E com medo dela ficar com o corpo dele, ele a destratou ao ponto dela se sentir totalmente perdida, se desconectando da própria essência.
O PEIXINHO QUE PROCURAVA O OCEANO
Foi então que Joe finalmente conseguiu o que queria: realizou seu grande sonho de tocar ao lado de Dorothea Williams, a musicista que tanto admira.
Uma apresentação inesquecível, realizando o que desejava há tanto tempo.
Saiu do show em êxtase, e se deparando com a musicista, perguntou o que virá depois.
E ela simplesmente diz: Voltamos amanhã e fazemos tudo de novo.
Ele fica desconcertado, como quem diz: Era só aquilo?
Depois de tantos anos sonhando com aquele momento, imaginava que sua realização traria uma sensação definitiva de plenitude. Como se, a partir dali a vida finalmente se tornasse outra.
Percebendo sua decepção, Dorothea lhe conta uma pequena história.
Um peixinho procurava um peixe mais velho, querendo descobrir onde ficava o oceano. O peixe mais velho lhe explica que o oceano é justamente aquela imensidão de água em que ambos já estão nadando.
Mas o peixinho não compreende. Aquilo, para ele, era apenas água. O que procurava era o oceano!
Ahhh, como gosto dessa metáfora!
Quantas vezes fazemos exatamente a mesma coisa?
Estamos tão ocupadas procurando a grande realização, a felicidade definitiva, o propósito extraordinário, que deixamos de reconhecer a vida na qual já estamos mergulhadas.
E talvez o mais bonito dessa passagem seja o que acontece depois.
Joe volta para casa, senta-se ao piano e encontra os pequenos objetos que a alma 22 havia guardado durante sua experiência na Terra.
Coisas aparentemente sem importância.
Uma folha caída de uma árvore. Pequenas lembranças de momentos que, para ela, tinham sido extraordinários.
E então ele se sente inspirado e começa a tocar.
E, enquanto a música flui, aquelas lembranças despertam nele uma nova percepção.
O homem que acreditava ter encontrado seu propósito exclusivamente na música começa a reconhecer a beleza de tantas experiências que havia deixado passar. Sua vida como um todo, seus alunos, sua família, seus aprendizados, suas idas e vindas no cotidiano da vida quando criança ao lado dos pais, e depois como adulto.
É como se, naquele instante, a paixão dele pela música e o encantamento de 22 pela vida finalmente se encontrassem.
E essa descoberta o leva de volta à alma 22, que havia começado a acreditar que não tinha o que era necessário para viver.
Joe então consegue fazer com que ela compreenda algo que ele acabara de perceber: ela não precisava descobrir uma grande missão para merecer sua experiência na Terra.
Viver já era uma possibilidade extraordinária.
Essa passagem me emociona porque não diminui a importância dos sonhos.
Joe continua amando a música. Continua sendo um músico e professor apaixonado.
Mas descobre que a música é apenas uma das maneiras pelas quais ele pode se expressar e desfrutar sua existência.
Não precisa ser a única razão pela qual sua vida tem valor. Sua existência já é a evidência do seu valor.
Isso me faz pensar quantas vezes fazemos o mesmo que aquele peixinho.
Procuramos o oceano enquanto nadamos nele.
Esperamos alcançar a vida que desejamos, sem perceber que já estamos vivendo uma vida cheia de experiências, descobertas e possibilidades.
Talvez a questão não seja deixar de buscar nossos sonhos.
Talvez seja aprender a reconhecer o oceano enquanto seguimos nadando.
Além dos papéis, existe você
A história de Joe me faz pensar em quantas vezes confundimos aquilo que fazemos com aquilo que somos.
E essa é uma das conexões mais bonitas que encontro entre Soul e o trabalho que desenvolvo no Essência Inata.
Quantas vezes nos definimos por aquilo que fazemos?
Nos definindo como mãe, esposa. Tornando o Ser limitado ao papel: Sou profissional. Sou cuidadora. Sou aquela que resolve. Sou aquela que dá conta.
Ou até nos definimos por aquilo que ainda queremos conquistar?
Quando eu conseguir isso, serei alguém.
Quando alcançar aquilo, vou me sentir realizada.
Quando finalmente chegar lá, poderei descansar e aproveitar.
E, sem perceber, vamos colocando nosso valor e nossa felicidade em algum lugar fora de nós.
Mas e a mulher que existe antes, durante e depois de todos esses papéis?
A mulher que sente, que observa, que ama, que aprende, que se encanta, que muda de ideia e que pode viver muitas experiências diferentes ao longo da própria história?
Ela não precisa esperar pela próxima conquista para existir.
Além dos papéis, ela já existe e é você.
E talvez uma das nossas grandes descobertas seja reconhecer que podemos continuar realizando nossos sonhos sem entregar a eles a responsabilidade por toda a nossa felicidade.
Onde estou colocando meu poder?
Essa pergunta é uma das minhas companheiras no caminho do autoconhecimento.
Porque, quando acredito que só serei feliz depois que algo acontecer, posso acabar colocando meu poder justamente naquilo que ainda não tenho.
No reconhecimento que não chegou.
Na resposta que alguém ainda não deu.
No projeto que ainda não saiu do papel.
Na vida que imagino viver um dia.
E então me pergunto:
O que estou deixando de experimentar enquanto espero?
Que possibilidades já estão disponíveis?
Que pequenos encantos estão passando despercebidos?
Não se trata de abandonar nossos sonhos ou de nos conformarmos com situações que desejamos transformar.
Trata-se de perceber que a vida não precisa ficar suspensa enquanto caminhamos na direção deles.
Posso trabalhar por aquilo que desejo e também desfrutar o caminho.
Posso me dedicar a um projeto e continuar apreciando um pôr do sol.
Posso ter planos para o futuro e reconhecer a beleza de estar aqui, agora.
Posso ajustar minha rota sem precisar desqualificar minhas escolhas do passado, nem deixar de celebrar a viagem.
É nesse movimento que encontro a essência do Método VOLTA: observar onde estou colocando minha energia, reconhecer minhas escolhas e trazê-la de volta para a vida que me pertence viver.
O PROPÓSITO DE VIVER ESTÁ TAMBÉM NO PRÓPRIO VIVER
No final, o que mais me toca em Soul não é a ideia de que devemos desistir de procurar um propósito.
É perceber que talvez tenhamos confundido propósito com profissão, missão, sociedade, talento ou conquista.
Essas coisas podem fazer parte da nossa história.
Podem nos inspirar, nos movimentar e nos proporcionar experiências maravilhosas.
Mas não precisam ser a condição para que nossa existência tenha sentido.
A vida também está no aroma de um café.
Na conversa inesperada.
No riso que escapa sem pedir licença.
No ombro amigo que acolhe as lágrimas de uma perda.
Na música que nos faz dançar.
Na brisa que toca nosso rosto.
Na beleza de usar de empatia, gentileza e acolhimento no cotidiano das relações.
Na folha que cai de uma árvore e, por alguns segundos, nos convida a interromper a pressa.
Gosto de imaginar que a alma 22 nos oferece um lembrete delicado:
Às vezes, aquilo que estamos procurando como uma grande descoberta está presente nas experiências mais simples de estar viva.
E talvez não precisemos escolher entre realizar nossos sonhos e desfrutar o cotidiano.
Podemos fazer as duas coisas.
Podemos amar profundamente aquilo que fazemos sem reduzir toda a nossa existência a isso.
Podemos ter uma direção sem transformar o destino na única parte importante da viagem.
Porque o propósito de viver também pode estar no próprio viver.
E você?
Que parte da sua vida está esperando por uma grande conquista para receber sua permissão de ser desfrutada?
Cris Lacerda
Essência Inata — um caminho de volta para si 🦋



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