A Bacia D'àgua
Atualizado: 9 de out.

A BACIA D'ÁGUA
Era um daqueles dias gostosos de sol, em que tudo parecia convidar a desacelerar.
Duas irmãs aproveitavam a tarde na varanda de casa, entre plantas, flores e a companhia de seus bichinhos.
Enquanto a mais nova observava tranquilamente a água de uma antiga bacia, a irmã mais velha tentava cuidar de algumas plantas.
Até que o gato resolveu se aproximar da bacia dela.
— Ah, não! Você de novo! Sai daí!
Assustado, o bichano se afastou.
Mas, incomodada com a possibilidade de ele voltar, ela decidiu puxar a bacia para mais perto de si.
Foi quando algo curioso aconteceu.
Ao puxá-la, a água se movimentou na direção contrária, afastando-se dela e transbordando pela borda.
— Mas que coisa! — resmungou.
Tentou novamente, puxando com mais força.
E a água, mais uma vez, avançou para o lado oposto.
A irmã mais nova, que acompanhava a cena, sorriu.
— Engraçado, não é? Quanto mais você puxa a bacia, mais a água se afasta de você.
A mais velha parou por um instante.
Olhou para a água que ainda se movimentava e depois para a irmã, que permanecia serena diante de sua própria bacia.
— E você? Como consegue ficar tão tranquila?
— Acho que é porque não estou tentando controlar a água. Estou apenas apreciando seu movimento.
Aquela resposta ficou ecoando.
E talvez exista nessa pequena cena uma metáfora para muito do que fazemos na vida.
Quantas vezes tentamos controlar pessoas, situações e resultados acreditando que, se tudo acontecer como imaginamos, finalmente poderemos ficar tranquilas?
Queremos que o outro compreenda.
Que mude de atitude.
Que faça a escolha que consideramos melhor.
Que a vida siga o caminho que planejamos.
Então insistimos, explicamos, antecipamos problemas, criamos soluções e tentamos movimentar aquilo que nem sempre nos pertence.
Puxamos a bacia. E, sem perceber, nos afastamos da nossa própria água.
Porque, nessa metáfora, a bacia representa o mundo externo: as pessoas, as circunstâncias e tudo aquilo que não podemos comandar.
A água representa nosso poder pessoal.
Nossa energia, nossa essência, nossa capacidade de perceber, escolher, agir e ajustar a rota.
E quanto mais nossa atenção fica presa à tentativa de controlar o que está fora, menos percebemos o que está acontecendo dentro de nós.
Mas soltar a bacia não significa desistir, aceitar qualquer coisa ou abandonar nossas responsabilidades.
Podemos nos abrir para conversar, fazer acordos, estabelecer limites e tomar decisões.
O que não está em nosso poder é determinar como o outro responderá ou garantir que a vida acontecerá exatamente como planejamos.
Existe uma diferença entre agir sobre aquilo que está em nossas mãos e tentar controlar aquilo que não está.
A irmã mais velha voltou a observar a água.
Dessa vez, não tentou encontrar uma maneira mais eficiente de movimentar a bacia.
Simplesmente soltou suas bordas.
A água continuou formando pequenas ondas.
Ela não tentou interrompê-las.
Apenas observou.
E, aos poucos, percebeu que não precisava controlar cada movimento para permitir que a água encontrasse seu próprio fluxo.
Talvez seja assim também com a vida.
Soltar o controle não é uma estratégia para fazer tudo acontecer do nosso jeito.
É reconhecer o que nos pertence movimentar e liberar aquilo que não está sob nosso comando.
É trazer nossa atenção e nossa energia de volta para nós mesmas.
Porque soltar o controle não é perder o poder.
É deixar de desperdiçá-lo tentando exercer poder onde ele nunca esteve.
A irmã mais velha olhou para a mais nova e sorriu.
O gato, que já havia esquecido toda aquela confusão, acomodou-se tranquilamente ao lado delas.
E as duas permaneceram ali, apreciando a tarde, as plantas e o suave movimento da água.
A vida continuava acontecendo.
Sem precisar ser controlada a cada instante.
Talvez nossa essência também precise disso.
Espaço para fluir.
E você?
Quanto da sua energia está na sua própria água e quanto está sendo gasto tentando controlar as bacias à sua volta?
Cris Lacerda
Essência Inata — um caminho de volta para si 🦋
Obs.: Texto originalmente publicado em 2018 e revisitado em 2026, com uma nova abordagem narrativa, preservando sua essência.



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