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Presenças e acasos

1 de nov. de 2018
5 min de leitura

Atualizado: 10 de out.



Presenças e acasos

Entre as sincronicidades da vida e a presença de quem a vive.


Você já reparou como algumas músicas parecem conversar entre si?


Uma fala do acaso que nos protege. Outra brinca com encontros inesperados. Há aquela que canta os amores que chegam sem avisar, as histórias que se cruzam e as possibilidades que surgem pelo caminho.


E lá vamos nós, cantarolando versos de diferentes canções, como se estivéssemos costurando a trilha sonora da nossa própria existência.


Mas há uma dessas ideias que sempre me provoca.


Será mesmo que é o acaso que nos protege?


Confesso que essa pergunta me desperta um sorriso meio irônico.


Porque, quando olho para minha vida, para os encontros que vivi, os caminhos que percorri e as experiências que me transformaram, não consigo enxergar tudo isso como uma sucessão de acontecimentos soltos, sem qualquer conexão.


Vejo movimento. Vejo relações. Vejo um fluxo de vida do qual faço parte.


E, muitas vezes, reconheço nele aquilo que Jung chamou de sincronicidade: coincidências que ganham significado para quem as vive.


A vida tem sua própria música

Nem sempre sabemos o que virá na próxima estrofe.


Fazemos planos, construímos sonhos, criamos expectativas. Algumas coisas acontecem como imaginávamos. Outras seguem por caminhos que jamais teríamos previsto.


Pessoas chegam. Pessoas partem. Uma conversa abre possibilidades. Uma experiência nos convida a rever certezas. Uma despedida muda a maneira como olhamos para o tempo.


Quando escrevi a primeira versão deste texto, atravessava um período de transições e despedidas.


Lembro-me de meu pai, que costumava dizer, quando alguém partia desta vida, que estava retornando ao seu verdadeiro lar.


Era a maneira dele de compreender a existência. Uma visão que carrego com carinho e que sempre me convida a olhar para a vida para além daquilo que meus olhos conseguem alcançar.


Talvez por isso a ideia de que tudo simplesmente acontece por acaso nunca tenha feito muito sentido para mim.


Sinto a vida como um fluxo maior, do qual participamos, mesmo sem conseguir compreender toda a sua extensão.


Isso não significa que eu encontre uma explicação para tudo.


Há acontecimentos cujo significado reconheço muito tempo depois. Outros permanecem como perguntas. E há momentos em que não preciso interpretar nada: apenas viver o que está diante de mim.


Nem toda experiência precisa ser decifrada para fazer parte do fluxo da vida.

E onde entra a minha presença?


É aqui que essa reflexão se encontra com algo que considero essencial.


Se a vida é um fluxo, isso não significa que eu seja apenas uma passageira levada pela correnteza. Eu também participo.


Participo com meu olhar, minhas escolhas, minhas atitudes, minhas interpretações e com a maneira como me relaciono com aquilo que vivo.


Não tenho o controle sobre tudo o que acontece. E nem preciso ter.


Mas posso observar onde estou colocando minha energia.


Posso perceber quando estou tão ocupada tentando fazer a vida corresponder às minhas expectativas que deixo de escutar o que ela está me apresentando.

Posso reconhecer quando insisto em segurar algo que já mudou.


Posso acolher o que sinto, aprender com minhas experiências e escolher meu próximo movimento.


Para mim, estar presente não é tentar comandar o fluxo.

É reconhecer que faço parte dele.


O que ainda quero viver?


Há uma canção dos Titãs, Epitáfio, que sempre me faz pensar sobre o tempo e as escolhas que deixamos para depois.


Quando escrevi este artigo pela primeira vez, brinquei com uma adaptação da música. Imaginava uma vida em que eu amasse mais, me arriscasse mais, me perdoasse mais e aproveitasse melhor os pequenos momentos.


Hoje, relendo aquelas palavras, percebo que havia ali um convite que continua vivo em mim.


Não quero esperar que a vida esteja inteiramente compreendida para vivê-la.

Não quero transformar o passado em uma prisão, nem o futuro em uma promessa da qual dependa minha felicidade.


Quero continuar fazendo planos, criando, amando, experimentando, mudando de ideia, aprendendo com meus equívocos e me surpreendendo com os caminhos que se abrem.


Quero reconhecer as sincronicidades que me tocam, sem precisar sair procurando mensagens escondidas em cada esquina.


E quero também desfrutar daqueles momentos aparentemente simples, em que nada extraordinário parece acontecer, mas a vida está ali, inteira, acontecendo.


Entre a presença e o mistério


Gosto da ideia de que existe Algo Maior se expressando através da vida.

É uma percepção que faz parte da minha espiritualidade e da maneira como experimento o mundo.


Mas também reconheço que cada pessoa constrói sua própria compreensão da existência.


Talvez algumas chamem de sincronicidade aquilo que outras chamariam de coincidência. Talvez encontrem significados diferentes nos mesmos acontecimentos.

E tudo bem.


O que me interessa é o convite à presença.


Porque, independentemente de quanto conseguimos compreender sobre os mistérios da vida, continuamos responsáveis pela maneira como escolhemos participar dela.


Não somos responsáveis por tudo o que acontece.

Mas podemos reconhecer o que nos pertence diante do que acontece.


E, quando penso no caminho de volta para si, é justamente disso que estou falando.


De deixar de procurar todas as respostas fora e voltar a escutar a própria voz.


De perceber que a vida não precisa caber inteiramente nas nossas explicações para que possamos vivê-la com consciência, amor e encantamento.


Talvez a pergunta não seja se o acaso vai me proteger.

Talvez seja:


Como estou me fazendo presente nesse extraordinário fluxo que é viver?


Cris Lacerda

Essência Inata — um caminho de volta para si 🦋


Uma conversa entre 2019 e 2026

Este texto nasceu em 2019 e foi revisitado em 2026. Escolhi preservar sua versão original logo abaixo, com a linguagem, as músicas e as reflexões que expressavam meu olhar naquele momento.

Afinal, revisitar nossa história também é uma maneira de reconhecer o caminho que percorremos.


Texto originalmente publicado em 2019


"O Acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído?


Se acaso me quiseres, 

sou dessas mulheres que só dizem sim?

Se acaso você chegasse no meu chateau 

e encontrasse aquela mulher que você gostou?


...nada é por acaso e nem precisa ter razão?

Eu não quero mais um caso por acaso, 

não quero mais viver uma ilusão"

Ou sigo ao acaso cantando mais uma canção?...


A vida é um Acaso,  como que perambulando sem sentido, 

                            aleatoriamente 

respirando ares no vácuo perdido no meio do Universo?

Ou será esta mesma Vida cheia de Sentidos,  Propósitos e Presença, 

               quase que gritando, de peito desnudo,  pedindo para ser desvelada?!! 


A hora é agora, de Gritar, Sorrir,  Amar e Vibrar  de Alma em punho,  a Alegria de viver a Consciência do Agora,  Estar na Presença do nosso Ser.


Pois este é o exato momento 

de pegarmos nossos pincéis, das mais variadas cores,

e focarmos nossa energia

    da pintura mais real que há em nós, o mais maravilhoso cotidiano feliz do                                                                 Agora!! ;-)


E como cantou um dia o poeta, 

como uma escrita na lápide, de nome Epitáfio,


Hoje escolho amar com mais presença, acolher minhas lágrimas, arriscar novos passos e respeitar as pessoas em suas próprias histórias.


Cada coração carrega alegrias e dores que nem sempre conseguimos enxergar.

E eu sigo aprendendo a complicar menos, a dar aos pequenos problemas o tamanho que realmente têm, a celebrar o amor e a me encantar, mais uma vez, com o nascer do sol.


Cris Lacerda


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